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terça-feira, 28 de novembro de 2006

Hans Kelsen e a Teoria pura do direito

O austríaco Hans Kelsen foi considerado um dos maiores juristas no século XX. Quando escreveu a primeira versão da obra Teoria pura do direito, em 1934, Kelsen era forte crítico do psicologismo e da vontade do Estado. Ele se indagava como o Estado não era uma pessoa e poderia ter vontade.

Não sendo a vontade uma categoria de explicação do direito, era preciso haver outra. A partir daí, deixou-se influenciar pelo pensamento kantiano, o qual fala sobre o ser e o dever ser. Dessa maneira, estaria o direito enquadrado na última categoria.

Para o jurista austríaco, o direito não está no plano dos fatos, mas sim no das normas; ele é algo que pode ser descrito através delas. Kelsen pretendia era construir uma ciência do direito autônoma, que não precisasse de conteúdo. A teoria do direito deveria ser universal, formalista e normalista.O papel do cientista do direito nesse caso era estudar os fundamentos da validade formal da norma. Ele tem que descobrir o direito, assim como conhecê-lo e aplicá-lo.

Existiriam dois tipos de interpretação: “a interpretação do Direito pelo órgão que o aplica, e a interpretação do Direito que não é realizada por um órgão jurídico, mas por uma pessoa privada e, especialmente, pela ciência jurídica”. A interpretação autêntica de uma norma, segundo Kelsen, seria feita por um órgão aplicador do direito, o mesmo que também poderia ser o criador.

Quanto à resolução dos casos, haveria uma decisão para cada um. Pode acontecer, no entanto, de haver várias possibilidades de aplicação da norma, mas dentro de uma “moldura”. Por exemplo, um juiz avalia um caso e pode aplicar uma pena que varia pode variar na questão temporal. Se o limite for de um a três anos, o juiz pode escolher um, dois, dois anos e meio ou três anos; mas toda a decisão que for tomada estará dentro da moldura.

Para Kelsen, “a necessidade de uma interpretação resulta justamente do fato de a norma aplicar ou o sistema das normas deixarem várias possibilidades em aberto, ou seja, não conterem ainda qualquer decisão sobre a questão de saber qual dos interesses em jogo é o de maior valor, mas deixarem antes esta decisão, a determinação da posição relativa dos interesses, a um ato de produção normativa que ainda vai ser posto”.

Mesmo falando dessa questão da escolha dentro da moldura, ele diz que a escolha não deve ser vista como um problema do direito, mas sim como da política do direito. A distinção entre assuntos como moral e sociologia é total do direito.

Depois da Segunda Guerra Mundial, Kelsen reviu os pensamentos dele. Uma das razões para isso seria porque o modelo não descreveria o modelo jurídico na prática. Ele descarta as idéias de ser e de dever ser por influência do realismo americano.

Desde então, passa a considerar que existe o elemento da vontade dentro da escolha do juiz em determinado caso e que a decisão – tirada da moldura – passa a ser direito positivo aplicado. A interpretação não é vista apenas como norma, mas como a junção desta com a vontade.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

A hermenêutica gadameriana

O homem é um animal hermenêutico. É nessa afirmação que se baseia o pensamento de tanto de Gadamer quanto de Heidegger, de quem o primeiro foi pupilo. Para compreender o que diz Gadamer é preciso analisar a temporalidade, já que segundo o filosofo alemão, o homem é um ser finito e histórico.

Ele aborda a questão de como é possível a compreensão através da hermenêutica filosófica, assim conhecida por não seguir os métodos das ciências humanas. Métodos esses, conforme explicita Gadamer, que não é caminho da verdade. “A verdade zomba do homem metódico”, pois o máximo que ele pode fazer é apreender apenas uma verdade.

Segundo Gadamer, “ser compreendido é a linguagem” e o homem vive dentro do mundo lingüístico. Não é um autor soberano que dita as regras, mas é a linguagem em si que provoca o homem e causa-lhe efeitos. “Toda compreensão é interpretação e toda interpretação se faz no seio da linguagem” diz Manfredo Oliveira.

O processo de interpretação requer uma autocompreensão que ocorrerá quando o homem definir o seu papel no tempo e na história. O ser do eis-aí-ser, escreve Manfredo, “é uma mediação entre o passado e o presente na direção do futuro que se abre”. Ou seja: compreende-se através de pré-conceitos, que são mais a realidade histórica do seu ser.

A interpretação perfeita acontece com a união dos horizontes do texto e do intérprete. “Se há uma transformação no indivíduo que está falando e no outro que está escutando, então, há um diálogo. Mas não existe uma perspectiva ideal de encontro, como a idéia de um símbolo de duas metades. Todo outro em sua alteridade está sempre além do ‘tu’ que o indivíduo conhece”. (Gadamer)

A tradição, essencial para a visão gadameriana, está ao alcance do presente através da escrita, ocasionando num alargamento e enriquecimento dos horizontes. Gadamer acredita que “a e escrita é uma espécie de fala alienada e a tarefa da hermenêutica consiste precisamente em reconduzir a escrita a fala”. Pode-se fazer uma analogia com o sistema de codificação, é como se o pensamento fosse condensado em forma de texto e esperasse pelo intérprete para ter vida e ação novamente ao ser decodificado/interpretado. A linguagem é finita porque dentro dela há uma infinidade de sentidos que podem surgir.

Ao interpretar algo, o homem leva a suas experiências para tentar compreender o que está sendo mostrado. O entendimento se dá de acordo com a vivência do receptor, não importando o contexto de quem o escreveu, mas de quem o lê. Aí entraria o caso da hermenêutica jurídica. Não vem ao caso quem escreveu as leis, mas a aplicabilidade, sendo mais relevante a interpretação feita pelo jurista que a vai designar.

“Quem quer compreender um texto, em princípio, tem que estar disposto a deixar que ele diga alguma coisa por si. Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente tem que se mostrar receptiva, desde o princípio, para a alteridade do texto. Mas essa receptividade não pressupõe nem neutralidade com relação à coisa nem tampouco auto-anulamento, mas inclui a apropriação das próprias opiniões prévias e preconceitos, apropriação que se destaca destes.” (Gadamer) O leitor tem que estar aberto, deixar o texto se expressar, mesmo se ele necessite da tradição e dos pré-conceitos para compreendê-lo.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Dr. House: medicina à la Sherlock Holmes

Não sou nem um pouco noveleira. Não sei bem ao certo o motivo, talvez as histórias sejam ruins, mas principalmente seja o fato de ter que ficar “presa” a algo, tendo que acompanhar todos os dias os capítulos de uma estória que parecia nunca ter fim, principalmente hoje em dia, quando os autores prolongam os folhetins em busca de audiência e merchandising.

Contraditoriamente (ou não?!?!) sou viciada em séries... e quando eu gosto de uma sou pior do que a “típica noveleira”. Fico louca para saber o que vai acontecer, qual será o destino dos personagens. Mas ao mesmo tempo, o que eu gosto, é que as séries, na maioria dos casos, tem um começo, um meio e um fim. A ansiedade é para saber o que vai acontecer no próximo episodio, qual vai a estória seguinte, como a personagem vai reagir numa situação diferente...

Há algumas séries pelas quais sou encantada, porém confesso ter uma “quedinha” por aquelas que tenham um certo suspense (tem que ser o inteligente!), um mistério, mas que seja – por favor! – irônica! Não sou muito adepta ao estilo “bom mocinho”, prefiro aquelas personagens que tem “personalidade”, são bonzinhos, mas com um pitada de maldade.

Por isso faço o possível (muitas vezes vou dormir de madrugada!) para assistir House. O seriado possui todas as qualidades de um bom folhetim: suspense, mocinhos e garotinhas bonitos, humor e... Hugh Laurie!! Bem que ele tenta disfarçar o sotaque inglês, mas, na minha humilde opinião mesmo que digam o contrário, não é 100% bem sucedido (o que, ao contrário do que algumas pessoas possam pensar é ótimo!).


House conta a estória de um médico (Gregory House), chefe de uma equipe que lida com os casos mais estranhos da medicina. O desenrolar dos episódios se dá na tentativa de Dr. House e sua equipe (composta por Cameron, Foreman e Chase) de achar um diagnóstico para os tipos raros – e bizarros – de enfermidade e com o relacionamento com seus subalternos, seu melhor amigo dr. Wilson e Cuddy (diretora do hospital). Na maioria dos casos, o final é feliz, em outros, o fim do paciente não é aparente, mas, em cada capítulo se tenta mostrar um pouco do lado humano e sensível do dr. House.

É que para ele tudo tem uma explicação lógica, baseada na sua observação do comportamento humano. Ele pode até entender o que se passa na mente dos outros, entretanto não entende a si próprio. É ranzinza, chato, desconfiado, manco, diferente dos outros médicos não usa jaleco, tem um aspecto de relaxamento, mas é exigente demais!!! Nossa... você deve estar pensando como é possível gostar de um cara assim... Assista e você vai descobrir!! Não é por acaso que a série da FOX (no Brasil apresentada pela Universal quintas às 23h, com reprise à 1h e sábados às 19h) é um sucesso desde sua estréia em 2004.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Política e conceitos: do clássico ao atual

A política é um assunto bastante comentado nos últimos meses por conta do ano eleitoral. Mas o significa da palavra política sofreu alterações desde Aristóteles, o qual escreveu a obra homônima e que “deve ser considerado o primeiro tratado sobre a natureza, as funções, as divisões do Estado e sobre as várias formas de governo, predominantemente no significado de arte ou ciência do governo”.

A partir de então, usou-se esse conceito sempre se referindo ao Estado ou a algo ligado a ele. A conseqüência é que os cidadãos não se acham enquadrados no meio político, o que deve se considerar um erro grave, pois todo o ser humano é um ser essencialmente político porque vive em sociedade e toma atitudes que afetarão não só a si próprio como aos que estão em volta.

O conceito de política desgastou-se também devido às más atitudes das pessoas eleitas para serem representantes do povo. E essa questão influenciou até a noção que se tinha de democracia.

Demo = povo, cracia = poder: governo do povo. O regime criado no período helênico, que na etimologia significaria um governo popular, teve o início já marcado por uma distorção. Na época do seu surgimento só era considerado cidadão aqueles que tivessem um certo poder aquisitivo e status social. A maior parte dos habitantes da Grécia não fazia parte desse grupo, mostrando-se que, na verdade, essa “democracia” estaria mais próxima de uma oligarquia (governo de poucos).

Mas não se deve desmerecer a contribuição dos gregos para a democracia. Hoje, esse povo que deveria se importar com o seu governo está desesperançoso e esquece que é ele que tem o poder para eleger, escolher os seus representantes, aqueles que têm a obrigação de lutar pelas necessidades, pelos anseios da maioria.

Uma sociedade torna-se tanto mais ingovernável quanto mais aumentam as demandas da sociedade civil e não aumenta correspondentemente a capacidade das instituições de a elas responder, ou melhor, com a capacidade de resposta do Estado alcançando limites talvez não mais superáveis.

Rousseau dizia que o Estado se formou da união de pessoas através de um contrato, um pacto social firmado pela maioria, na qual os integrantes abdicavam de uma parcela de sua liberdade individual para receberem em troca um outro tipo de liberdade, equivalente a primeira: a coletiva. Esse contrato visa o bem-estar social. E ainda é esse o papel do Estado atualmente, que deve fornecer o mínimo de condições possíveis para as pessoas. Ele deve dar gratuitamente educação, saúde, cultura e até mesmo moradia, como é previsto na Constituição Brasileira, por exemplo.

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Apesar disso, a teoria é diferente da prática e observa-se que a decadência do ensino e da saúde pública. As pessoas de classe média pagam por serviços que deveriam ser ofertados pelo responsável por zelar pelo bem-estar.

É difícil tentar entender e comparar algumas atividades tomadas pelo Estado. Isso porque a “razão” dele é diferente da individual. Segundo Bobbio, por ‘razão do Estado’ entende-se aquele conjunto de princípios e máximas com base nas quais as ações que não seriam justificadas se cumpridas por um indivíduo isolado não são apenas justificadas mas em alguns casos de fato exaltadas e glorificadas se cumpridas pelo príncipe, ou por qualquer pessoa exerça o poder em nome do Estado.

Em outras palavras, a razão do Estado é a política e a do indivíduo é a moral, que o impede dou instiga a fazer algo de acordo com a concepção própria de certo ou errado.

Os objetivos, certas vezes, são desviados por causa da ambição dos representantes do povo, os quais olvidam as necessidades dos que o elegeram e apenas almejam poder. Na tipologia clássica se diz que o poder seria o meio utilizado para se adquirir algo, alguma vantagem. Na época de Aristóteles, classificava-se o poder em paterno, despótico e político. Nesse último estariam em questão tanto os interesses dos governantes quanto os dos governados, todavia, numa forma corrupta de governo, existe somente os dos primeiros.

Já na tipologia moderna, a ordenação do poder ocorre de acordo com os meios utilizados pelo sujeito ativo para direcionar o comportamento do sujeito passivo. Sendo assim, há o poder econômico, o poder ideológico e o poder político. No econômico, usa-se a posse de bens necessários para influenciar aqueles que não os possuem.

“O poder ideológico funda-se sobre a influência que as idéias formuladas de um determinado modo, emitidas em determinadas circunstancia, por uma pessoa investida de uma determinada autoridade, difundidas através de determinados procedimentos, têm sobre a conduta dos consociados: desse tipo de condicionamento nasce a importância social em casa grupo organizado daqueles que sabem, dos sapientes. (...) O poder político, enfim, funda-se sobre a posse dos instrumentos através dos quais se exerce a forca física (armas de todo tipo e grau): e o poder coativo no sentido mais estrito da palavra.” (Bobbio, 2000.)

O mais forte dos três é o político, pois os grupos sociais recorrem a ele para manter a ordem através da coação. É o uso da força que torna o poder político diferente dos demais. Ele também se distingue porque tem exclusividade, universalidade e inclusividade. É exclusivo porque não permite grupos armados independentes; universal uma vez que a decisão tomada pelo detentor do poder afeta a todos; inclusivo porque intervem em outras atividades dos membros do grupo.

Nesta época de eleições, verifica-se bem as utilizações dos três tipos de poder mencionados para induzir os eleitores a votarem em determinados candidatos. Há, até mesmo, a compra de votos, descaracterizando todo o legitimo significado de democracia e de política.

É preciso que a sociedade civil (para alguns autores o lugar das relações econômicas e que não deve ser confundida com o conjunto de pessoas não inseridas na atividade militar) se conscientize do seu papel na formação de um governo justo.

A sociedade civil representa o lugar onde se formam, especialmente nos períodos de crise institucional, os poderes de fato que tendem a obter uma legitimação própria inclusive em detrimentos dos poderes legítimos – o lugar onde, em outras palavras, desenvolvem-se os processos de deslegitimação e de relegitimação.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

A teoria (de) Juliana

Poxa... quando eu me animo toda porque encontro uma banda chamada “The Juliana Theory” vejo que ela já acabou!! Será possível que tudo o que tem Juliana no meio não termina bem?

Mas para quem quer saber um pouquinho mais da história deles...

O grupo foi formado em 1997 por cinco rapazes da Pensilvânia (Estados Unidos). Eram eles: Brett Detar (vocais e guitarra), Chad Alan (baixo e backing vocal), Joshua Fiedler (guitarra), Joshua Kosker (guitarra e backing vocal) e Josh Walters (bateria).

A banda, extinta em 9 de fevereiro de 2006, teria alcançado o auge em 2002. Segundo o comunicado oficial dos garotos “não é fácil ver algo que você construiu arduamente lentamente declinar”.

TJT é rotulada como alternativa, não só pelo som, mas pela atitude dos componentes os quais tentavam não se deixar levar pelo que o mercado fonográfico faz.

É uma pena.

sábado, 22 de julho de 2006

Música na velocidade da luz

Qual seria a solução para acabar com a pirataria no mundo? Desde o surgimento do Napster, criado pelo americano Shawn Fanning, seria impossível fazer uma estimativa do número de downloads de músicas que foram feitos.

Os artistas reclamam que não têm os direitos autorais respeitados, as poderosas gravadoras entram na briga e a confusão se instala. Mas, eis que surge uma nova questão: será que valeria mesmo a pena acabar com a oferta de músicas gratuitas na rede mundial de computadores?

Segundo a minha humilde opinião, creio que o assunto não deveria nem ser cogitado. Várias bandas independentes, sem contratos assinados com grandes – ou até mesmo médias – gravadoras utilizam a internet como forma de divulgação. E, é necessário dizer, que com grande sucesso!!

Com o preço dos CDs cada vez mais caro, a inflação subindo, o câmbio oscilando (no caso dos países que não possuem o Euro ou o dólar) fica difícil desembolsar uma certa quantidade apenas para “ouvir melhor” ou “conhecer uma nova banda”.

Além de ser um jeito barato e prático de divulgação, com a internet, os downloads, em apenas questões de segundos, um lançamento de uma banda japonesa pode estar tocando no iPod de um jovem chileno. Como isso seria possível sem a ajuda das trocas de arquivos?

A nova onda agora são sites, pelos quais os internautas possam escutar as músicas, mas sem baixá-las. Além disso, caso se interessem, podem encontrar informações da banda, preço de discos, entre outros. É o caso da RádioTerra e da LastFM, onde o usuário pode até encontrar “vizinhos”, pessoas que tem um gosto musical similar.

Arctic Monkeys foi das bandas que tirou proveito dessas “estratégias virtuais” e hoje está estourando nas paradas mundiais. Para se ter uma idéia do impacto, o primeiro álbum dos garotos (Whatever people say I am that's what I'm not) foi o que vendeu mais rápido na Inglaterra, batendo recordes que antes pertenciam aos Beatles e Rolling Stones.

E aí, será que continuar na rede não vale a pena?

sexta-feira, 12 de maio de 2006

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Mundo virtual

Não é de admirar, que ao me escutar dizer que gastaria todo o dinheiro que um dia eu tivesse com viagens, meu querido amigo Anderson falasse: “Eu, não! Para quê? Já tem Sky, internet para isso.”

Tudo está a apenas um clique ou a um apertar de botão. Mudamos de canal e podemos ver até o que está acontecendo do outro lado do mundo, no Japão; o que os franceses estão assistindo às 20 h.

Se olharmos por um certo ângulo, ele está coberto de razão. Nada se compara a vivenciar os fatos, mas algo me fez refletir sobre isso. Estão surgindo e se popularizando diversos programas e sites, os quais possibilitam aos usuários verem qualquer lugar do mundo, através de fotos de satélites. Você faz uma volta ao mundo não em 80 dias, mas em, digamos, 80 segundos. Além dos sites que disponibilizam câmeras ligadas 24h em determinadas cidades.

O que é um avanço da tecnologia e da informática, às vezes assusta. Parece que tudo escrito por George Orwell no best-seller 1984 está surgindo. Quem sabe o nosso verdadeiro Grande Irmão não seja a internet?!

Ao mesmo tempo em que a rede mundial de computadores tornou-se um local “democrático” (ainda custo a acreditar nisso), ela cria uma idéia muito virtual de tudo. Até mesmo da vida e de suas experiências. Penso no que poderá acontecer com as próximas gerações, que não conhecerão qualquer tipo de brincadeira saudável, mas serão jogadas (se já não estão sendo) num mundo cheio de informação no qual é preciso de experiência real para compreendê-las. E as conseqüências, quais serão?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Educação: importante ou prioritária?

“Todos são iguais perante a lei.” E para fazer valer o artigo 5º da Constituição Brasileira, promulgada em 1988 no auge da ânsia do povo brasileiro por igualdade e democracia, nada melhor do que a educação. Através de um ensino de qualidade, mas não apenas dele, as oportunidades podem ser mais bem equiparadas.

No encontro que o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, teve, em outubro de 2005, com o ministro das Finanças chinês, Jin Renqing, ele afirmou que a educação é prioritária no desenvolvimento do país.

A diferença entre ser prioritária ou ser importante é bastante sutil. Segundo o dicionário de língua portuguesa importante é algo “necessário, o que é essencial ou mais interessa”. Já prioritário vem de prioridade que significa “qualidade de que ou de quem vem primeiro; precedência dada a alguém com preterição de outrem”. Ao se analisar, o que está no dicionário, nota-se que a educação possui ambos adjetivos, apesar de que além de educação, outros benefícios devem ser oferecidos ao povo.

Os países que investem na educação, por exemplo, França e Alemanha, onde a taxa de analfabetismo de pessoas acima de 15 anos é menor que 5%, apresentam tantos bons índices de desenvolvimento como são referências no mundo acadêmico.

Num país como o Brasil, onde 13,60% da população é analfabeta demanda-se muitos esforços. A situação melhorou, pois em 1970 o número era quase três vezes maior.

Mesmo com dificuldades, a luta em busca do aprimoramento educacional fez a escola Professora Jandira de Andrade Lima, situada em Limoeiro, Agreste de Pernambuco, receber o prêmio de melhor escola pública do país.

Nela, uma parceria feita com a escola primária Westerholt dá chances de crianças, que nunca imaginaram estudar alemão ou conhecer o país de Goethe e Schüller, tornarem alguns sonhos realidades. Lá, eles têm contato com o idioma e viajam pela primeira vez à Europa, oportunidade que poucos brasileiros possuem.

O dever com a educação não é somente com aquilo que está escrito nos livros, porém com todo o processo educativo, inclusive o social, no qual se aprende principalmente a ser cidadão tendo consciência de seus direitos e seus deveres.

É através dessa consciência sobre o papel que se ocupa no processo de formação social, econômica e política do país, que os 160 milhões de brasileiros poderão contribuir para o desenvolvimento.

sábado, 24 de dezembro de 2005

Os educadores

Jan, Jule e Peter: três jovens revolucionários que querem “educar” a elite alemã. Sim... educar, pois eles se intitulam de “Os educadores”, daí o título do filme. Seguindo o exemplo de Adeus, Lênin (com Daniel Brühl, mesmo ator que faz Jan), o enredo mostra um pouco da sociedade da Alemanha, que sofre há anos com toda a história política e social. A conturbação nesse país europeu vai desde antes do tempo do Früher, passando pela separação entre Alemanha Oriental e Ocidental, até os dias de hoje, nos quais os teutos se vêem ameaçados com uma possível instabilidade econômica e demonstraram isso nas urnas.

Mas The Edukators apresenta uma faceta da juventude atual que poderia fazer parte de qualquer lugar do mundo. Não existe mais um ideal certo, um inimigo claro contra o qual lutar como nos anos 60 ou 70. É como Jan diz, o que era revolucionário nessa época, hoje está nas prateleiras para ser vendidos e dar lucro. Ele até mesmo cita as inúmeras camisetas de Che Guevara (algo que eu já havia comentado no texto anterior). O fato é que não existe ideologia e, quando há, ela é o retrato do pós-modernismo: inconstante, múltipla. A prova é tamanha que Jan diz a Jule que, quando se observa mais do que se age, vive-se numa Matrix. Todos nós estamos vivendo numa, pois somos agentes passivos de uma história que está sendo feita “para” nós e não “por” nós.

Durante o filme somos levados a pensar o quanto nos rendemos ao sistema capitalista, mesmo sem percebermos. Hardenberg (milionário seqüestrado pelos três jovens) é uma prova da transformação feita pelo capitalismo, já que ele próprio foi um militante. É como ele afirma, “aos poucos vai acontecendo e você não percebe. Um dia você troca seu carro velho; no outro constitui uma família e quer uma casa boa...”.

É se deixando levar por essa mutação (in)consciente que compramos dezenas de roupas que não usamos; sapatos que valem uma fortuna, porém custam muito menos, porque são feitos por mão-de-obra barata, exploração infantil... Você pergunta: “É eu com isso?” Vou deixar os educadores responderem: “Manche Leute ändern sich nie” (Algumas pessoas nunca mudam.)

Entrevista com o diretor Hans Weingartner.

domingo, 6 de novembro de 2005

Live Strong Che Guevara!

A febre tomou conta do mundo. É quase impossível ver alguém que não tenha as benditas pulseirinhas amarelas da Nike. E é TODO MUNDO mesmo... de Jesse McCartney em seriado da Sony, Sean Paul no novo clipe ao coleguinha da universidade.

Mas vá perguntar se sabem o significado delas, quem as fundou. Eu confesso também que não sabia. Não vou me fingir de entendida, não. Só descobri depois de que o meu orientador de projeto (sobre bicicletas) falou sobre as pulseiras de Lance Armstrong.

Isso mesmo!! Para quem ainda não conhece a história, elas foram criadas pelo ciciclista texano heptacampeão do Tour de France. O objetivo dele era arrecadar dinheiro para as pessoas que sofrem com o câncer. Até a cor tem uma explicação, pois amarela é a cor preferida de Lance, assim como da camisa do vencedor da Volta da França. Ele também fundou a Fundação Lance Armstrong que ajuda aqueles que sofrem com esse tipo de doença, da qual ele se curou. Mais um parêntese: o texano teve câncer de testículo, e, tornou-se campeão do Tour de France depois que se curou completamente.

Voltando para a conversa sobre o "modismo". É inacreditável quantas coisas que usamos pour ser fashion, estar na moda, tem seus significados. E se não fosse por uma boa causa? Isso me faz lembrar de... Che Guevara! Quantas são as pessoas que estampam uma camisa do argentino (sim... ele é nosso hermanito!) sem saber quais foram os seus ideais?!... Garanto que ele não gostaria de saber a moda do último desfile...

O post só foi para nos ligarmos, sem nada muito acadêmico, somente para vermos o quanto de simbolismo não tem os dias de hoje.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Jornalismo sem fronteiras

Você já notou que o noticiário internacional ocupa um espaço relativamente pequeno na maioria dos jornais e que na maioria das vezes o texto é feito por agências internacionais (ou nacionais quando se tratam de jornais de médio e de pequeno porte)? Será mesmo que as notícias têm o peso que merecem? Como é o perfil de quem faz as notícias e de quem as lê? Essas são perguntas que podem ter as respostas encontradas no livro “Jornalismo Internacional” da Editora Contexto, escrito por João Batista Natali, que foi correspondente na Folha de São Paulo.

O livro Jornalismo internacional, escrito pelo jornalista João Batista Natali, é uma verdadeira aula sobre o tema, que possui pouca obra relacionada a ele. No decorrer da leitura, encontra-se o perfil do leitor da editoria internacional, o que é preciso para ser um bom jornalista dessa área, além de um pouco da história do jornalismo internacional e da trajetória da Folha de São Paulo, no quesito em questão.

Através de uma linguagem simples, foi redigido num tom coloquial, fazendo parecer que o escritor conversa diretamente com quem lê. Ele não se intimida em cortar o assunto e indicar um livro para aprofundamento. E, a todo instante, faz convites para serem feitas mais pesquisas relativas ao jornalismo internacional.

Para Natali, essa editoria deve receber uma atenção especial, pois “o leitor faz parte de um segmento minoritário e mais bem informado. É um leitor que possui critérios menos provincianos e mais metropolitanos de interesse”.

Mas, como seria o perfil ideal de um profissional que trabalha com esse tipo de jornalismo? Um fator importantíssimo seria a curiosidade pela História. Isso porque é “equivocada a idéia de que o jornalista lida apenas com a atualidade. Não há competência profissional sem que tenhamos uma visão clara daquilo que está historicamente por detrás da notícia e que as agências internacionais não transmitem”.

Assim como nos demais setores, a crise econômica atingiu as redações. O que era um trabalho exclusivo dos jornalistas do noticiário internacional passou a ser atribuído aos demais funcionários das outras editorias. Tudo para que fossem reduzidos os gastos com correspondentes no exterior.

Até a qualificação do jornalista deve ser melhor do que nos anos anteriores, já que “se passou a exigir mais dos redatores das editorias internacionais”. Afinal de contas, custa caro manter um profissional fora do país.

O jornalista da área ainda passa por um grande desafio: o de dar uma nova roupagem ao texto, pois eles são padronizados pelas agências e enviados para todos os jornais. O uso exclusivo das imagens e textos de agências ocasiona uma monotonia na cobertura internacional. Como diz o autor, “a competência jornalística consiste em colocar uma linda cereja nesse mesmo bolo antes de servi-lo”.

É preciso saber falar inglês e espanhol fluentemente, haja vista que as agencias não dispõem mais de serviços em português. O jornalista precisa entender a “linguagem diplomática”. Mas isso não significa que os outros idiomas não sejam essenciais porque “a importância deles está diretamente associada à influência econômica e política dos países que os falam”. E, para quem ainda não atentou para o estudo das línguas estrangeiras, João Batista Natali avisa: “o jornalista monoglota é uma raça em extinção. Foi pelas editorias internacionais que eles começaram a ser extintos”.

O noticiário internacional vai além da cobertura de guerras e assuntos diplomáticos. Ele foi invadido pela onda “people”, composto pelas notícias das celebridades mundiais. O escritor utiliza a teoria de Theodor Adorno para explicar o motivo da atenção, com relação à curiosidade sobre os famosos, ser desviada da vida profissional dos artistas para a pessoal. Seria um “fetiche” da mercadoria cultural. As páginas dos jornais são invadidas pelo assunto porque “a fronteira entre o jornalismo e entretenimento nem sempre é muito nítida”.

História – O autor faz uma viagem na história do jornalismo internacional, que se confunde com a própria história do jornalismo. Nesse aspecto, João Natali desmistifica alguns lugares comuns dessa história. Para ele, acreditar que o setor surgiu no século XIX é um equívoco. Outro erro seria acreditar que a notícia se tornou “mercadoria” apenas com a consolidação do capitalismo, o que ocorreu já no mercantilismo.

O alemão Jacob Függer von der Lille, o mais importante banqueiro europeu nas primeiras décadas do século XVI, foi o criador da newsletter. Os agentes de Függer enviavam, regularmente, informações que afetariam os negócios. Natali diz que foi “o embrião do jornalismo econômico e político, voltado para assuntos internacionais”.

“Függer e seu embrião de newsletters impressas permitiam a manutenção de uma rede que fazia as informações circularem por circuitos paralelos aos utilizados por duas redes previamente existentes, a rede diplomática, que orientava monarcas, e a rede eclesiástica, que orientava dirigentes da burocracia na Igreja”, explica João Batista Natali. Dessa maneira, “a informação foi comercializada como instrumento para produzir eficiência e poder nos negócios”.

Esse é só um pequeno exemplo que demonstra que o “jornalismo não pode se apequenar, fornecer da atualidade uma visão que será negada pelos historiadores”.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Dependência e desenvolvimento na América Latina

Fernando Henrique Carodoso formou-se em Ciências Sociais, em 1952. No ano seguinte, tornou-se auxiliar de ensino da cadeira de Sociologia I. Em 1955, Florestan Fernandes, nomeou-o primeiro assistente. A geração de Fernando Henrique acompanhou a visita de Jean Paul Sartre ao Brasil, em 1960.

Na universidade era marxista e desenvolveu estudos sobre Karl Marx. Também tiveram influência sobre ele: Montesquieu, Tocqueville, Max Weber, Sérgio Buarque de Holanda e Joaquim Nabuco.

Em entrevista à Folha de São Paulo, em 1996, o próprio FHC definiu-se da seguinte maneira: “(...)Quer dizer, é preciso estar mais próximo da vida para poder fazer trabalho intelectual. Nunca fui intelectual do gênero somente 'ler autores'(...)tenho um pouco de aversão ao 'comentarismo'. Parece uma forma pobre de ser intelectual(...)Claro que é preciso ler bem e detidamente as coisas. Mas quando o sujeito tem força, vai ver o que está acontecendo na realidade, tenta explicar, tentar avançar. Senão você fica fechado no círculo, lê, relê, trelê, volta a ler, comenta uma coisa, comenta outra. Acho que aí cai no academicismo, no mau sentido”.

Em 1970, escreve juntamente com o chileno Enzo Faletto, “Dependência e desenvolvimento na América Latina”, mais conhecida como a “teoria da dependência”. Ainda de acordo com a Folha, na teoria da dependência “o comércio internacional favoreceria os países ricos encarecendo os produtos de ponta e desvalorizando os produtos primários e pouco manufaturados dos atrasados, parecendo se manter, a não ser em casos monopolizados como o do petróleo, sendo aí vantagem estar no setor primário e não se livrar dele”.

Para FH, a ditadura militar favorecia o crescimento econômico e a modernização. E, esses eram fatores essenciais da democracia. José Carlos Reis, autor do livro As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC declara que Fernando “submete a paixão à razão”. Com isso, afirma que o sociólogo paulista, ao contrário de Darcy Ribeiro, não pensa emocionalmente. Ele tenta analisar imparcialmente os fatos. Segundo FHC, a justiça social só seria possível com o desenvolvimento do capitalismo e da civilização tecnológica. Os países estão interligados através de investimentos industriais. As empresas estrangeiras têm uma participação importante no “desenvolvimento” da América Latina. “Tanto o fluxo de capitais quanto o controle das decisões econômicas ‘passam’ pelo exterior”, diz FH. “As decisões de investimento também dependem parcialmente de decisões e pressões externas”. As multinacionais dominam os setores-chave da economia.

“O desenvolvimento do setor industrial continua dependendo da ‘capacidade de exportação’ de bens de capital e de matérias-primas complementares para o novo tipo de diferenciação do sistema produtivo (o que conduz a laços estreitos de dependência financeira), e ademais essa forma de desenvolvimento supõe a internacionalização das condições do mercado interno, que ocorre quando nas economias periféricas organiza-se a produção industrial dos setores dinâmicos da moderna economia. E, quando se reorganiza a antiga produção industrial a partir das novas técnicas produtivas”.

Em sua obra, FHC cita bastante a condição do México, que seria um exemplo para os demais países latino-americanos.

Há uma radicalização mais teórica, todavia mais política do que teórica. Ele faz uma reflexão sobre o método dialético materialista. Aponta dois equívocos da derrota de 1964: erros de interpretação e outros fatos novos que culminaram na aliança da burguesia com o imperialismo e as elites tradicionais. Dentre esses fatos, destacam-se: a Revolução Cubana, a atividade sindical, entre outros.

Fernando H. Cardoso e Gilberto Freyre aproximam-se no seguinte ponto: os dois transformaram coisas “maléficas”, em (digamos...) “benéficas”. No caso de Freyre a miscigenação e a escravidão viraram coisas normais, já para FHC, a postura dotada foi em relação à dependência dos países latinos, inclusive o Brasil.

Analisa a economia colonial, tenta enxergar a influência e as conseqüências da escravidão no Brasil. “O avanço e a modernização do capitalismo dependem do fim da escravidão”. Não apenas aquela escravidão dos negros africanos, mas também a diária, que ocorre no Brasil. Há dois tipos de industriais no Brasil: o associado ao capital estrangeiro, e aquele que conseguiu capitais adquiridos no trabalho da lavoura.

O desenvolvimento e a dependência podem existir em um mesmo país, no entanto não são associadas; elas existem separadamente.

Ele fala dos países latino-americanos dentro do contexto global, porém não esquece da especificidade de cada local.

Na conclusão do livro “Dependência e desenvolvimento na América Latina”, FHC afirma que o principal objetivo é “reconsiderar os problemas do ‘desenvolvimento econômico’ a partir de uma perspectiva de interpretação que insiste na natureza política dos processos de transformação econômica”.

“A existência de um ‘mercado aberto’, a impossibilidade da conquista dos mercados dos países mais desenvolvidos pelas economias dependentes e incorporação contínua de novas unidades de capital externo sob a forma de tecnologia altamente desenvolvida e criada mais em função das necessidades intrínsecas das economias maduras do que das relativamente atrasadas fornecem o quadro estrutural básico das condições econômicas da dependência. Mas a combinação destas com os interesses políticos, as ideologias e as formas jurídicas de regulamentação das relações entre os grupos sociais é que permite manter a idéia de ‘economias industriais em sociedades dependentes’. Portanto, a superação ou a manutenção das ‘barreiras estruturais’ ao desenvolvimento e a dependência dependem, mais que de condições econômicas tomadas isoladamente, do jogo do poder que permitirá a utilização em sentido variável dessas ‘condições econômicas’”.

Fernando Henrique parece apoiar o que está acontecendo, a união com o capital estrangeiro. A obra dele possui elementos teóricos que a diminuem como teoria científica. O conceito de dependência é impreciso, ambíguo (dependência externa e estrutural). Também não tratou de uma possível ruptura da dominação capitalista, que teria como conseqüência uma revolução socialista. O estudioso Lawrence Harrison critica Fernando. Harrison acha que a “Teoria da Dependência - uma espécie de doença infantil da América Latina - escondeu aos latino-americanos o peso de sua herança cultural. Ora, FHC e Enzo Faletto podiam acreditar que os males da América Latina fossem devidos ao então proverbial imperialismo ianque. Mas eram ambos cultos demais para não ter uma idéia dos fatores propriamente culturais também em jogo. Resumindo: o Brasil teve um crescimento econômico assustador durante 20 anos e tem enfim instituições democráticas, mas não por isso realiza as condições mínimas de igualdade e comunidade de uma sociedade moderna. É culpa dos norte-americanos? Não. Então é uma questão cultural”, ele conclui.

Entretanto, a principal crítica que se pode fazer ao sociólogo é porque ao se eleger Presidente da República, mandou o povo brasileiro esquecer o que ele havia escrito. Prova do caráter volátil do digníssimo Fernando Henrique Cardoso.

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

Pós-modernismo: a lógica do capitalismo tardio

A tese central do texto de Frederic Jameson afirma que o pós-modernismo seria uma extensão cultural do capitalismo tardio. Dessa forma, só existiria onde houvesse o desenvolvimento do capitalismo. Não havendo, portanto, numa sociedade indígena. Deve-se levar em consideração a época na qual a obra foi escrita: anos 80. Nesse período, o mundo passava por transformações, o muro de Berlim caíra. Isso reflete no texto de Jameson.

No pós-modernismo tudo é instável, inconstante, tem-se aversão a tudo que for de longa duração. Ao contrário do modernismo e suas idéias, originárias do final dos anos 50 e início da década de 60. Como exemplo dessa instabilidade tem-se os ataques terroristas de 11 de setembro (nos Estados Unidos) , 11 de março (na Espanha), 7 de julho (Londres). A população está totalmente vulnerável e o imprevisto pode acontecer a qualquer momento. Até o terrorismo é um espetáculo feito para ser televisionado.

Impera a sociedade do simulacro. As coisas são superficiais, não há tempo para nada, e muitas existem sem que se saiba as utilidades delas. A estética, o visual tem um papel relevante, já que como falta tempo para se aprofundar em algo, as primeiras impressões são fundamentais. Daí vem todo o apelo visual encontrado no mundo de hoje.
Nada é novo. A partir do instante que surge, passa a ser velho; graças à velocidade dos meios de comunicação. A humanidade é esquizofrênica - no sentido literal da palavra – haja vista que exerce múltiplos papéis. E essa multiplicidade é decorrente de uma característica do pós-modernismo: a heterogeneidade. Há coisa para todos os gostos, elas convivem paralelamente, como numa “bricolagem”, sem se misturarem.

O que importa é ser diferente. Enquanto no modernismo, “o diferente” estava longe de nós, no pós-modernismo ele está bastante próximo.

Há uma exacerbação da cultura, mas não porque seria um direito do cidadão ou algo do gênero. Essa revalorização ocorre porque a cultura consiste num mercado rentável. Tudo é feito para ser vendido. E, no centro dessa produção cultural estão os Estados Unidos, que fabricam a cultura deles para ser absolvida (leia-se imposta) pelo restante da população mundial. Esse fato não deixa de ser um reflexo da hegemonia econômica e política americana perante os demais países.

Jameson utiliza-se bastante da arquitetura para explicar as características do pós-modernismo. Através dela, prova que o indivíduo está mais propenso ao isolamento. Os grandes edifícios vão se transformando em verdadeiros feudos, onde não é preciso muito esforço para se encontrar o que quer.

O passado também não existe no pós-modernismo, caso igual ao da História, que contada pelos vencidos, estaria passível de erros. Até as produções cinematográficas que têm como enredo temas épicos, estão mais preocupadas em retratar a parte estética, como a arquitetura e a moda. A História fica apenas como uma “atriz coadjuvante”.

Outro aspecto que está em segundo plano no pós-modernismo é o afeto. Trata-se da era da falta de expressão e da ansiedade. “Nossa vida cotidiana, nossas experiências psíquicas, nossas linguagens culturais são hoje dominadas pelas categorias de espaço e não pelas de tempo, como o eram no período anterior do alto modernismo”, escreve Frederic Jameson.

Ao mesmo tempo em que há uma fragmentação na pós-modernidade, existe um sentimento de “coletivismo”, mas no sentido de que as pessoas não passam de números, são vistas como “mais uma”. O autor diz que “o desaparecimento do sujeito individual, ao lado de sua conseqüência formal, a crescente inviabilidade de um estilo pessoal, engendra a prática quase universal em nossos dias do que pode ser chamado de pastiche.” Isso seria “o imitar de um estilo único, peculiar ou idiossincrático, é o colocar de uma máscara lingüística, é falar em uma linguagem morta”.

O pós-modernismo não é para ser compreendido, apenas vivido. Porque do mesmo modo que o passado esmaeceu, não há perspectiva de futuro, não se sabe o que virá depois dele...

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Cultura: um conceito reacionário?

Para Guattari a cultura é um conceito “profundamente reacionário. É uma maneira de separar as atividades semióticas”. Segundo o autor, a cultura não existiria isoladamente, se conjugada a ela não houvessem outros aspectos como o econômico e político.

Para entender melhor o pensamento de Guattari, vamos ver o significado da palavra “reacionário”. Conforme o dicionário Aurélio “1.próprio da reação; 2.contrário à liberdade”. Detendo-se no último, vê-se que a intenção de Felix Guattari seria afirmar que a cultura prende o indivíduo. Através delas os governantes obteriam o domínio da população mais facilmente.

Ao mesmo tempo em que a cultura segmenta, ela une pessoas que possuem pensamentos semelhantes.

Guattari diz que a “cultura de equivalência” seria um modo de controle da subjetivação. O capital seria um complemento. Enquanto a cultura ocuparia-se da sujeição subjetiva, o capital era responsável pela sujeição econômica.

No decorrer do texto, ele vai descrevendo as diversas formas de cultura. Por exemplo, a cultura de massa primaria pelo hierarquismo, entretanto a submissão seria velada, inconsciente.

A todo instante ele comenta acerca da influência capitalista na economia. “Não existe, a meu ver, cultura popular e cultura erudita. Há uma cultura ‘capitalística’ que permeia todos os campos de expressão semiótica. No fundo, há só uma cultura: a capitalística. É uma cultura etnocêntrica e intelectocêntrica”.

Acredito que o escritor é radical quando pensa que a cultura não existiria isoladamente. Mesmo ela isolando e “aprisionando” as pessoas, como afirma o conceito reacionário de Guattari, é mutável e passível de questionamentos. O que acontece é que os políticos utilizam-na erroneamente. E nem mesmo o autor tem certeza do que diz, verifica-se isso pelo título, em forma de pergunta. Cabe a cada um tentar preencher essa lacuna.

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Matrix e Guattari

Pensadores, estudiosos, cineastas, músicos, artistas em geral, todos já notaram o poder da tecnologia e, no meio desse pandemônio, tentam descobrir suas identidades.

Vive-se num mundo no qual os homens são verdadeiros escravos dessa tecnologia. Tão subservientes que, um filme como Matrix, cuja crítica é sobre o poder exagerado da tecnologia, depende da mesma para reproduzir seus inúmeros efeitos especiais.

O que é real e o que é irreal? Não se tem mais noção. Segundo a teoria de Braudillard, no pós-modernismo ocorrerá o domínio do simulacro, onde será possível a substituição do mundo real por uma versão simulada tão eficaz quanto a realidade.

Ocorrerá ou já está ocorrendo? Em Matrix, há a dicotomia do personagem principal que se divide entre duas vidas, a real e a aparente, entre dois nomes, Anderson e Neo (verifica-se simbologia até no nome fictício dele: “Neo”, o “novo”). Quantas vezes as pessoas não se escondem atrás de nicks, em salas de bate-papo e preferem viver uma vida virtual à real.

Baseando-se na internet como sendo uma grande Matrix, também temos os processos moleculares citados por Guattari. Esses movimentos moleculares seriam os que prezam pela singularização dentro da rede mundial de computadores. Quais seriam? Os blogs, fotologs, entre outros.

No decorrer do filme, Morfeu diz a Neo que “Matrix é o mundo que acredita ser real para que não se perceba a verdade”. Intrigado, Neo pergunta qual seria essa verdade e ouve a seguinte resposta: “Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro. Nasceu numa prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma prisão para a sua mente”. O pensador francês Félix Guattari também teria uma resposta para Neo. Se houvesse um diálogo entre Guattari e o personagem de Matrix, possivelmente ele diria que essa prisão mental poderia vir da cultura, já que ela é reacionária.

A cultura prende o indivíduo do mesmo jeito que a Matrix “cegou” Neo. A realidade choca. Quando Neo a enxerga diz a Morfeu: “Por que meus olhos doem?” Ele prontamente afirma: “É porque você nunca os usava”. Pensamento semelhante ao da cantora baiana Pitty, que na música intitulada Admirável Chip Novo fala: “Pane no sistema alguém me desconfigurou, aonde estão meus olhos de robô? Eu não sabia, eu não tinha percebido (...) nada é orgânico, é tudo programado e eu achando que tinha me libertado”.

Assim, pensando que está livre, o homem não conheceria o real, acreditaria no falso como sendo verdadeiro. Até mesmo no que diz respeito à reprodução humana, Matrix mostra os desejos humanos de querer perpassar a biologia, criando homens em série e em cativeiros.

Quanto à memória e identidade do homem, no pós-modernismo é tudo instantâneo. Esquece-se do passado. É tudo muito rápido, como nos computadores, no qual basta apenas um click para apagar anos de trabalho e história. Como construir uma identidade nessas condições? Como a identidade multifacetária e com a ajuda da cultura – mesmo ela sendo reacionária – as pessoas através de sua individualidade, seus “devires” podem construir uma identidade própria. Essa é a luta de Neo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

O jornalismo solidário e a ética da jornalista Xinran

A escritora Xinran cumpriu o seu verdadeiro papel de jornalista – esquecido por alguns profissionais atualmente - e de cidadã ao escrever o livro As boas mulheres da China. Através do poder concedido à mídia e ao jornalista (ao se fazer público), ela deu voz às milhares de chinesas injustiçadas e mostrou ao mundo o que se passa no país mais populoso do mundo. Ela nos forneceu uma visão não apenas de uma jornalista, mas de uma chinesa, que lidava diariamente com os problemas aos quais se referia.

Mesmo após ter o livro transformado em best-seller, a jornalista nunca usou a fama com outro propósito que não fosse ajudar suas compatriotas. Apesar de ser perseguida, colocar a vida em risco, ela não fraquejou ao se arriscar para ver o que escreveu ser lido por milhões de pessoas em todo o mundo.

A solidariedade e a ética da obra de Xinran estão justamente nisso: contar uma história verídica, objetivando uma melhoria, dar o direito do mundo saber o que acontece numa civilização milenar que, até hoje, é lembrada pela tortura, mas que ao mesmo tempo almeja uma reabertura político-econômica num mundo globalizado.

E é nesse contexto de globalização que o livro As boas mulheres da China é importante. A preocupação com os Direitos Humanos e a idéia de avanço na civilização fazem o leitor sentir-se chocado ao constatar os absurdos cometidos na China. Xinran ainda
é ética ao relatar as histórias de diversas chinesas de uma forma delicada, protegendo a identidade delas (verifica-se isso na “nota da autora”, ao avisar que os nomes foram modificados).

Não ser só redatora, mas também personagem, esse é o diferencial de Xinran, que viu no livro uma forma de lutar por direitos iguais numa China machista e invadida por preconceitos oriundos, principalmente, da diferença de pensamentos e ideologias.

domingo, 4 de setembro de 2005

"É cum a dor!"

Pela primeira vez estou tendo a oportunidade de olhar a colonização brasileiras pelos olhos do colonizador. Não é bem a brasileira, mas... vou explicar...

Estou lendo o livro “Equador” do português Miguel Sousa Tavares na verdade ele é uma ficção, mas tem muito de história portuguesa. O autor mistura a história da colonização de São Tomé e Príncipe com a de Luís Bernardo, um bon vivant que é escolhido pelo rei Carlos dr Bragança para ser governado da menor província lusa na época (início do século XX).

É engraçado porque os Estados Unidos são o que são porque bem herdaram os genes dos ingleses!! Em 1906, o país de Bush não era o império que é hoje. Quem dava as cartas era a Inglaterra, como todos já sabem que acontecia até o final da Segunda Guerra Mundial.

Então... os ingleses, que diziam querer acabar com a escravidão, se incumbiram de fiscalizar os demais países, dentre eles Portugal, para que não fossem mais levados negros da África para as colônias.

Só que muitos negros saíam de Angola para trabalhar em São Tomé... Eles eram “contratados”. Não preciso chegar até o fim do livro para saber que espécie de contratos eram esses...

O papel de Luís Bernardo é fazer com que a opinião do cônsul inglês acerca de São Tomé mude. Portugal não quer ter a imagem de última nação a explorar os negros africanos. Daí, o desenrolar da história não sei (e não contaria para não perder a graça, né?) porque ainda to na página 150 e o livro tem mais de 500! Hehehehe

Mas vamos ao que de fato me chamou atenção. Os ingleses só estavam interessados em tomar São Tomé de Portugal, pois ele era um grande produtor de cacau (só perdia para a Bahia) e com isso usavam o pretexto da escravidão.

Em certa parte do livro, o governador de Angola fala que os preconceituosos não são os portugueses, mas sim os ingleses. O argumento dele? Como se deu a colonização em Angola, por exemplo? Como se deu aqui no Brasil, hein? A diferença da de Angola para a do Brasil é apenas o nome dos países. Como foi que um país pequeno e pouco povoado construiu um verdadeiro império? Era preciso “povoar”!

Os portugueses do Alentejo, os mais pobres e aventureiros que não tinham nada a perder ganhavam fazendas em Angola, viravam “donatários”. Mas para isso era preciso que eles “achassem” a terra, ou seja, embrenhavam-se pelo interior da África. Aqueles que achavam as “fazendas” pegavam uma ou duas negras como “esposas”. A única exigência de Portugal era que se ensinasse o português aos “mulatinhos”. Voilà!! Hoje temos uma África que fala lusófona!!

Já os ingleses preferiam levar a família e tentar a vida num lugar totalmente desconhecido e nunca tinham filhos pardos, não “se misturavam”. É tanto que nos Estados Unidos até hoje existem verdadeiros guetos.

É assim que nascemos também... e não neguemos nossas origens lusas, pois muito do “jeitinho brasileiro” tem da maneira portuguesa de ser, notaram?

* O título foi esse porque se especula que "Equador" venha da contração do português arcaico "É cum a dor".

Ótima entrevista com o autor de Equador!

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Cultura: um conceito antropológico

No livro Cultura: um conceito antropológico, Roque de Barros Laraia abrange algumas das teses antropológicas que visavam responder determinadas questões relacionadas à cultura.

Inicialmente, os estudos apontavam as características genéticas como grandes influenciadoras da personalidade humana. E, mostrando-se logo no começo da obra, como um “determinista cultural”, o autor fala que independente dos genes, o que prevalece é a cultura. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade.” Ele diz que até a divisão do trabalho por sexo é um aspecto meramente cultural.

No decorrer da obra, Roque cita o Determinismo Geográfico, o qual afirmava que as diferenças no ambiente físico afetavam a diversidade cultural. Entretanto, em seguida o escritor comenta que na década de 20, há uma quebra desse conceito. “E possível e comum existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico.”

A cultura é seletiva, explora “determinadas possibilidades e limites ao desenvolvimento, para o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura”. Laraia ratifica, baseado nos estudos antropológicos modernos, que “as diferenças existentes entre os homens não podem ser explicadas em termos das limitações que lhes são imposta pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente”.

Edward Tylor criou o termo culture, advindo da junção da palavra alemã Kultur, que estava relacionado aos aspectos espirituais, e do vocábulo francês civilization, que seriam os feitos materiais. Dessa forma, cultura era toda a possibilidade de realização humana.

O autor destacou estudos realizados antes do surgimento do termo culture. Foi o caso de John Locke. Em 1690, escreveu Ensaio acerca do desenvolvimento e demonstrou que a mente do homem seria uma “caixa vazia”, com a possibilidade de adquirir conhecimento. Era através dessa aquisição, que ia sendo preenchida.

Influenciado pela teoria evolucionista de Darwin, Tylor acreditava que a humanidade estaria dividida em estágios da civilização. A européia seria a mais avançada. O autor já demonstrava com isso uma característica até hoje comum: o etnocentrismo. A cultura se desenvolveria de maneira uniforme, linear. Em um dos capítulos do livro, Roque de Barros Laraia fala exatamente o oposto: “a cultura é dinâmica”.

Stocking critica Tylor ao dizer que ele esqueceu do relativismo cultural dos múltiplos caminhos da cultura.

Contrário ao evolucionismo, apareceria o alemão Franz Boas. Ele atribuiu a Antropologia Moderna:


a) a reconstrução da história de povos de regiões particulares;
b) a comparação da vida social de diferentes povos, cujo desenvolvimento segue as mesmas leis.

Quanto à cultura, teria surgido a partir do aparecimento da primeira regra: a proibição do incesto. Ela seria abstrata e, contraditoriamente, por essa razão, era impossível determinar “onde, como e por quê” surgiu.

O autor tenta deixar claro que apesar do homem ser um animal, a cultura afasta-o definitivamente desse aspecto. “O homem ao adquiri-la perdeu a propriedade animal. Tudo que o homem faz, aprendeu com os seus semelhantes e não decorre de imposições originadas fora da cultura”.

A cultura funciona como códigos binários. Existiriam culturas diferentes porque elas organizariam esses “códigos” de maneiras distintas. Ela é possuidora de lógica própria, então é inadequado se dizer o que é “certo” e “errado”. Ao se fazer isso, o julgamento corre o risco de ser etnocêntrico.

A cultura influencia até mesmo no plano biológico e a tendência é o crescimento dessa influência. Os indivíduos não participam de todos os aspectos dela, e nem o fazem igualmente. “Qualquer que seja a sociedade, não existe a possibilidade de um indivíduo dominar todos os aspectos de sua cultura. Isto porque, como afirmou Marion Levy Jr., ‘nenhum sistema de socialização é idealmente perfeito, em nenhuma sociedade não são todos os habitantes igualmente bem socializados, e ninguém é perfeitamente socializado. Um indivíduo não pode ser familiarizado com todos os aspectos de sua sociedade; pelo contrário, ele pode permanecer completamente ignorante a respeito de alguns aspectos. Embora nenhum indivíduo conheça totalmente o seu sistema cultural, é necessário ter um conhecimento mínimo para operar dentro do mesmo. Além disto este conhecimento mínimo pode ser partilhado por todos os componentes da sociedade de forma a permitir a convivência dos mesmos”.

A análise de outras culturas, se não a nossa, é complicada, já que quando não se está inserido em uma determinada cultura, pode-se ser considerado “cego culturalmente”.

Conclui-se que mesmo o autor sendo parcial, e exaltando a cultura em detrimento da natureza, ele não “fecha” nenhum pensamento. Coloca pontos diversos, teorias distintas, porém destaca sempre a cultura e quer confirmar que tudo é determinado por ela. Aí está a grande falha de Laraia: a cultura é limitada.

sábado, 27 de agosto de 2005

O caminho das nuvens

As bicicletas têm um papel muito além do de meio de transporte ou de meras coadjuvantes no filme “O caminho das nuvens”. A bicicleta é o elemento de ligação e, em certos casos, de desunião entre a família de retirantes nordestinos que percorrem mais de três mil quilômetros da Paraíba até o Rio de Janeiro, acreditando num futuro melhor.

É tendo as bicicletas como único meio de não se separar da família e ir em busca do seu sonho, que Romão sai destinado atrás de um emprego e uma vida digna para os que dele dependem. Ao viajarem juntos, a união e dependência dos familiares aumentam.

Um exemplo da bicicleta como fator que favorece a desunião fica explícito no momento em que há uma briga entre o casal principal. Romão (Wagner Moura) afirma que a viagem torna-se mais difícil por ser em bicicletas (“fura pneu, se machuca”) e fala que a esposa não sabe andar direito, o que a deixa irritada e causa momentos de tensão entre Rose (Cláudia Abreu) e o esposo. A bicicleta também é o único elo entre a Antônio, o filho mais velho, e a família quando ele decide “tomar as rédeas da vida” e tornar-se um adulto.

A todo o momento é questionada a atitude de Romão de percorrer mais de três mil quilômetros de bicicletas e com filhos pequenos (no início do filme, o caminhoneiro pergunta se é promessa), é como se o fato de não ter nada, lugar para morar, comida, roupa não tivesse importância. O que realmente é levado em consideração é o posicionamento do protagonista de utilizar as bicicletas.

Como afirma o ator Wagner Moura “a imagem da bicicleta é uma coisa muito poética”. E, é com esse lirismo que o enredo vai se tornando leve, suave e romântico. Com as bicicletas, os viajantes dependem, quase unicamente, do próprio esforço físico, da coragem. Eles não precisam alimentar nem abastecer o meio de transporte escolhido. As únicas coisas que “abastecem” a viagem são a alegria, a esperança e a união.

As bicicletas são as companheiras, estão presentes em todo o decorrer do filme. Até mesmo quando não são usadas, elas estão lá, paradas, inertes, como expectadoras e agentes influenciadores do filme.

A primeira coisa que Rose questiona ao viajar num caminhão (primeira vez que teriam de desfazerem das bicicletas) é: “E as bicicletas, podemos levar as bicicletas?” Elas são marco de um passado miserável e crença num futuro melhor, lembrança da terra deixada para trás e meio para chegar num lugar melhor.